Daniele Gonçalves Pompeu de Camargo

O medo é uma emoção considerada como um “legado” evolutivo, pois a manifestação da mesma leva as pessoas a evitar situações de ameaça\perigo e como consequência se protegem ou tomam cuidados que preservam a vida.

Sem nenhum medo, poucos de nós poderíamos sobreviver em condições naturais. Ele nos ajuda a atravessar uma rua com cuidado, a dirigir com responsabilidade e a se preparar para uma prova.
Tendo isso em vista, o medo então é uma emoção que pode nos proteger e é necessária para a preservação da nossa espécie. Mas, e quando ele se apresenta de forma excessiva? E quando as situações que tememos não necessariamente são verdadeiras e irão de fato acontecer?

Vamos descrever abaixo como essa emoção se origina e as implicações da mesma em situações patológicas.

A tríade cognitiva

Assim como outras emoções (raiva, tristeza, alegria) o medo é gerado pela interpretação de um evento que pode representar uma ameaça real ou imaginária. Sendo assim, diante de uma situação, um pensamento (interpretação) é gerado o que irá desencadear uma emoção e por fim irá gerar um comportamento (veja ilustração abaixo).

Exemplo:

Diante da situação – possibilidade de se infectar pela covid-19, pode-se ter um pensamento – posso me infectar o que irá gerar a emoção medo (numa intensidade normal que gera preservação) e isso vai resultar no comportamento de lavar as mãos com frequência e manter outros cuidados de higiene pessoal.

A mesma situação descrita acima poderá ser interpretada de uma forma muito diferente e com isso gerar um desconforto muito maior do que o necessário para a preservação da espécie. Sendo assim, diante da situação possibilidade de se infectar pela covid-19, pode-se ter um pensamento – vou certamente me infectar e vou morrer o que irá gerar a emoção de medo excessivo e um comportamento excessivo de higiene (lavar a mão a cada 5 minutos, mesmo sem ter saído de casa).

Como foi mostrado nos exemplos anteriores, uma mesma situação poderá ser percebida de diferentes formas e dependendo da maneira como é interpretada poderá gerar um desconforto que irá levar a um comportamento de preservação (cuidados adequados de higiene) ou a um comportamento disfuncional com descarga considerável de sofrimento.

Como enfrentar o medo que gera sofrimento

Como foi colocado, o medo advém da interpretação de uma situação. Desta forma, é muito importante analisar a situação da forma mais realista possível, buscando sempre a análise de evidências. Sendo assim, o pensamento “vou certamente me infectar e vou morrer” (colocado no tópico acima) não possui evidências suficientes para se sustentar pois, mesmo que se contraia a doença, não necessariamente o indivíduo irá morrer, já que muitas pessoas se curam e sobrevivem à mesma.

Além da análise das evidências, também pode-se utilizar a técnica de deslocamento de atenção. Considerando que só conseguimos manter na nossa consciência um único pensamento de cada vez, a partir do momento em que se está com o foco direcionado para uma situação, não há “espaço” para outro pensamento ocupar a consciência. Desta forma, quando estou prestando atenção em um filme, ou ouvindo uma música ou lendo um livro, não há espaço para o pensamento que gera medo excessivo ocupar a consciência.

Algo bastante eficaz é utilizar as estratégias acima concomitante à uma técnica de relaxamento, como a respiração diafragmática, cuja as orientações segue abaixo:

Inspire o ar pelo nariz, devagar, realizando a respiração abdominal, ou seja, o ar vai para a barriga e não para o tórax. Em seguida, solte o ar lentamente pela boca. O ideal é que se inspire em cinco tempos e se solte o ar em cinco tempos, isto é, contando até cinco. Não utilize uma grande quantidade de ar, apenas respire devagar e suavemente.” Repita essa série por no mínimo 5 ciclos.

Para saber se realmente se está realizando a respiração abdominal, coloca-se uma mão sobre o tórax e a outra sobre o abdômen. Ao puxar o ar, a mão que está sobre o tórax move-se para trás e a que está sobre o abdômen, move-se para frente.

Essas estratégias podem ser utilizadas em situações em que o medo se apresenta de forma excessiva e gera um sofrimento, pois como já foi mencionado, o medo deve estar presente na quantidade ideal, ou seja, nem demais, nem de menos.

Caso esteja sofrendo as consequências do medo excessivo, entre em contato com a nossa clínica!

Fonte: Neto TPB, Sem medo de ter medo. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000
Beck JS. Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática. Porto Alegre: Artmed, 2013

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