Por: Flávio Felix
A maneira como nos relacionamos com a comida aparece em diversos momentos da história e de formas diferentes a depender do período, sociedade, cultura e hábitos. Ela diz muito sobre nossa identidade social. No entanto, o ato de comer é um comportamento automático, ligado à sobrevivência e considerado mais forte que o impulso sexual, mas por que será que temos uma relação tão forte com a comida?
Uma das explicações é que somos amplamente impactados com os hábitos alimentares dos outros, em especial com quem convivemos, o que faz do comer também um veículo de acesso às emoções, associado às memórias afetivas. Também sabemos que o comer expressa a cultura a qual pertencemos e nos faz ingressar em outras. Observando isso, reconhecemos que o ato de comer está presente em diversos rituais e se tornando por vezes, o item mais importante do evento.
Mas como nem tudo é só festa e alegria, o comer em excesso pode levar a obesidade, que é presente desde muito tempo na sociedade e cresce com a queda da desnutrição, onde oferta e consumo aumentaram e o apetite e comportamentos alimentares também, que somados as influências genéticas e adaptações biológicas parecem ser responsáveis pelo crescimento da obesidade entre a população. Historicamente sabemos que as pessoas obesas eram vistas como anormais perante a sociedade, e com isso, apontadas como culpadas por sua condição, culpa essa e apontamentos que persistem na atualidade ainda que de formas diferentes, o que favorece a baixa autoestima, limitações diversas, sensação de estar transgredindo, aumento da ansiedade e dificuldade de percepção de si.
Compulsão Alimentar
Um termo muito utilizado atualmente é “Compulsão Alimentar”, que entendemos como um fator de manutenção para obesidade, no entanto, não apenas pessoas obesas apresentam a compulsão alimentar, visto que ela está diretamente ligada a ideia de perda de controle do que e em que quantidade se come, e isso pode passar desapercebido em alguém não obeso. No diagnóstico encontramos uma relação de dependência com a comida, que faz com que a pessoa utilize-se dela muito mais para encontrar prazer e satisfação do que alimentar-se. Claro que em geral, em algum momento da vida apresentamos o comportamento de comer descontroladamente ou comemos por prazer e satisfação e isso não quer dizer que tenha compulsão alimentar. Para a pessoa que vive isso, a comida ganha tanto espaço e importância que a vida começa a ficar limitada e tudo que vai fazer precisa ter a comida como “central” e por isso, os tratamentos se assemelham muito ao da dependência química.
Podemos dizer então que se torna muito importante um diagnóstico e tratamento corretos para sucesso do tratamento. Para alguém com compulsão alimentar, somente fazer uma dieta não costuma oferecer resultado duradouro. Na clínica CreSer, quando nos deparamos com essa sintomatologia, sugerimos um acompanhamento compartilhado entre: psicólogo, nutricionista e médico para melhor avaliação e resposta de tratamento. Em outras fases sugerimos a entrada de outros profissionais: educador físico e quando necessário o médico psiquiatra.
Fontes: Mintz, S. W. A comida e antropologia: uma breve revisão. Revista Brasileira de Ciências Sociais. 2001.
Pivetta, L. A. & Silva, R. M. V. G. Compulsão alimentar e fatores associados em adolescentes em Cuiabá, Mato Grosso, Brasil. Cadernos de Saúde Coletiva. Rio de Janeiro, 2010.
Wanderley, E. N. & Ferreira, V. A. Obesidade: uma perspectiva plural. Ciências Sociais. Minas Gerais, 2001.